quinta-feira, 8 de maio de 2014

Nildo Viana aborda a questão da Revolução Alemã

O Blog do III Simpósio Marxismo Libertário entrevistou Nildo Viana sobre alguns aspectos da Revolução Alemã, tema de sua palestra durante a mesa redonda no III Simpósio Nacional Marxismo Libertário cuja temática são as experiências autogestionárias e que contará também com a análise da Revolução Polonesa de 1980, por Cláudio Nascimento, e da Guerra Civil Espanhola, por João Gabriel da Fonseca Mateus. Abaixo a entrevista com o sociólogo:

SOBRE A REVOLUÇÃO ALEMÃ


BLOG III SIMPÓSIO MARXISMO LIBERTÁRIO: Qual é a importância da Revolução Alemã?


A Revolução Alemã tem uma importância fundamental para a história do movimento revolucionário do proletariado. Ela, ao contrário de outras experiências, como a Comuna de Paris e a Revolução Russa de 1917, foi realizada num país capitalista mais desenvolvido, na Europa Ocidental, que, apesar de estar atrás no seu nível de desenvolvimento capitalista em relação a outros países europeus, já era uma nação industrial. Se na Comuna de Paris a população proletária, propriamente dita*, não constituía a maioria da população e na Revolução Russa era uma minoria (70% da população era camponesa), então a Alemanha foi o país de capitalismo avançado no qual a classe operária era maior. O processo revolucionário alemão aponta para o contexto social e histórico, bem como a situação da Alemanha, pois é um período de ascensão das lutas operárias, com o caso especial da Rússia (1905 e principalmente 1917), de guerra mundial (1914-1919), bem como de uma situação social de grande pobreza neste país, além dos traumas da guerra. Nesse contexto, a produção cultural de caráter crítico (especialmente a dissidência da socialdemocracia alemã, através de grupos como Liga Spartacus, de Rosa Luxemburgo; Comunistas Internacionalistas, de Otto Rühle; a Esquerda de Bremen, de Pannekoek e Gorter, etc., bem como as tendências artísticas como o expressionismo, entre outras), as lutas dos trabalhadores, e o exemplo russo aliado com a resistência e recusa da guerra, produziram uma situação de crise do capitalismo alemão e proporcionaram o surgimento dos conselhos operários e de soldados, o que gerou ações radicais, armadas, bem como outras formas de luta. Além de ter exemplificado a luta operária autogestionária numa sociedade capitalista mais avançada que no caso das experiências anteriores, outro elemento fundamental foi o papel de principal agente revolucionário, que coube à socialdemocracia. Da mesma forma, os problemas e dificuldades de constituição de uma sociedade autogerida também se mostraram, com as dificuldades da classe operária constituir uma nova sociedade, pois faltou um elemento que sempre esteve presente na grande parte das tentativas de revolução proletária: a articulação e a generalização. Nas revoluções proletárias, as lutas nas unidades de produção, com a greve de ocupação ativa alcançam seu auge, mas é preciso sua generalização e a greve geral é o seu início, mas uma vez criado uma dualidade política entre formas de auto-organização do proletariado, os conselhos operários, e Estado capitalista. Essa dualidade política só se encerra com a contrarrevolução, a vitória do poder estatal ou sua destruição pelos conselhos operários, o que pressupõe sua articulação e generalização no sentido de tomar conta da produção e autogerir o conjunto da sociedade (com apoio de outras formas de auto-organização, como conselhos de bairros, etc.). No caso alemão, isso foi dificultado não só pela força da socialdemocracia, mas também devido também à especificidade alemã, país de unificação tardia e muitas diferenças regionais e foi por isso que em algumas localidades se formaram repúblicas de conselhos operários enquanto em outras regiões isso não se concretizou e quando se conseguia em tais lugares, as outras tentativas já haviam sido derrotadas. Então, assim como todas as experiências históricas de revolução proletária, a Revolução Alemã tem uma grande importância para mostrar o potencial revolucionário do proletariado, formas de luta e auto-organização, como os conselhos operários, e os perigos e formas da contrarrevolução. O estudo de tais experiências é fundamental, não apenas para fazer sua apologia, mas também para ver por qual motivo chegaram tão perto e acabaram se tornando revoluções inacabadas. Há também o elemento complementar que é a importância real da Revolução Alemã num contexto de ascensão das lutas operárias e tentativas de revoluções proletárias (Rússia, Hungria, Itália), sendo a vitória do proletariado na Alemanha teria provocado novas tentativas de revoluções proletárias e ampliação da luta operária na Rússia, dificultando a dominação bolchevique e generalização do seu modelo de partido, "revolução" e "socialismo".


BLOG III SIMPÓSIO MARXISMO LIBERTÁRIO: Quais semelhanças e diferenças entre estas experiências e outras que são mais abordadas pela historiografia, pensamento político, etc.?


Uma das diferenças em relação às experiências anteriores é o já citado caso alemão, de ser um país de capitalismo mais desenvolvido, com uma sociedade civil organizada mais desenvolvida (e, inclusive em relação a algumas experiências posteriores, como o caso da Espanha, mais de uma década depois, mas com um capitalismo bem mais atrasado). Outra diferença é a constituição de uma tendência revolucionária que se desvencilha da socialdemocracia e do bolchevismo e constitui uma alternativa teórica e política, recuperando o caráter revolucionário e autogestionário do marxismo. O comunismo de conselhos, forjado na luta, serviu como primeira forma mais estruturada e articulada teoricamente (e praticamente) com as práticas e ideologias socialdemocratas e bolchevistas. Sem dúvida, a maioria dos comunistas de conselhos surgiu da própria socialdemocracia, sendo dissidentes internos inicialmente, e depois de 1914, quando o espartaquismo e o bolchevismo romperam definitivamente com os Partidos Socialdemocratas, iniciou-se o processo de formação do comunismo de conselhos, no interior das tendências do chamado "socialismo radical" ou "comunismo", mas já numa posição crítica (basta ver as divergências não só com a socialdemocracia, mas com o leninismo e até mesmo com alguns elementos do espartaquismo) e que com a explosão revolucionária passam a constituir uma nova tendência que é expressão do movimento revolucionário do proletariado. A formação das "uniões operárias" e do Partido Comunista Operário da Alemanha (KAPD), em oposição ao Partido Comunista Alemão (KPD), que se colocava como um "partido" que não é um "partido propriamente dito". É dessa época que aparece o famoso texto de Otto Rühle, "A Revolução Não é Tarefa de Partido". Apesar de conservar o nome, o KAPD é uma forma de organização não-burocrática, ao contrário dos partidos "comunistas" e socialdemocratas e intimamente vinculado aos conselhos operários. A cisão interna entre duas tendências, a de Herman Gorter, que defendia a necessidade de uma organização revolucionária, e a de Rühle, que passou a defender a dissolução dessa organização nas uniões operárias, mostra alguns dos problemas da época e da falta de acúmulo teórico daqueles que perceberam a necessidade de abolição da burocracia, mas não tinham ainda o tempo suficiente para entender a situação e propor uma alternativa. Foi somente depois que, inclusive com a reunificação das duas tendências, a reflexão pode avançar, embora numa situação contrarrevolucionária e de ascensão do nazismo, o que interrompeu o processo e ficou mais por iniciativas de pequenos grupos e indivíduos isolados (Pannekoek, Mattick, Korsch, etc.). No entanto, a produção teórica e a posição política estruturada pelos comunistas conselhistas na época e posteriormente, como derivação posterior, foi uma das grandes diferenças e por isso que nas revoluções proletárias posteriores a experiência e a teoria oriunda da Revolução Alemã reaparece, tal como no Maio de 1968 em Paris, para citar apenas um exemplo. A principal semelhança é a emergência dos conselhos operários como forma de auto-organização do proletariado, o que ocorreu anteriormente nas duas tentativas na Rússia como posteriormente em todas as demais tentativas de revolução proletária, mesmo que de forma embrionária. Da mesma forma, outra semelhança é a ameaça contrarrevolucionária, sob formas distintas, mas sempre presentes e tendo como forças fundamentais o Estado capitalista e os partidos da suposta "esquerda", bem como no papel conservador dos sindicatos nas sociedades de capitalismo mais avançado. A burocracia é a principal reserva contrarrevolucionária da burguesia, seja sob a forma de burocracia estatal, partidária ou sindical. Por isso a luta proletária revelou, mais uma vez no caso alemão e nisso coincidente com todas as outras revoluções proletárias inacabadas, que além da burguesia há outra classe que precisa ser combatida e superada: a burocracia. Por isso a necessidade de abolição do aparato estatal e eleitoral, bem como dos partidos e sindicatos, é uma das lições das revoluções proletárias inacabadas e que explica o seu inacabamento, pois foram as burocracias que conseguiram efetivar a contrarrevolução.



BLOG III SIMPÓSIO MARXISMO LIBERTÁRIO: Qual bibliografia contribui mais para a compreensão desse fenômeno histórico?



Existe uma bibliografia razoável sobre a Revolução Alemã, mas, tal como em muitos outros casos, ainda incipiente se comparada com o caso russo e ainda faltando uma obra mais profunda e detalhada dessa experiência. Obviamente que as obras existentes são perpassadas por distintas perspectivas de classe e por isso é possível ver aqueles que querem justificar a socialdemocracia alemã (tal como se vê nos livros dedicados a este tema na coleção Tudo é História, da editora Brasiliense, Daniel Aarão Reis Filho, A Revolução Alemã: Mitos e Versões e de Ângela Almeida, Da República de Weimar à Ascensão do Nazismo, apesar dessa última ser muito superior) e responsabilizam a classe operária pela vitória socialdemocrata, afinal, esta "representava o proletariado". No fundo, é a tese do reboquismo para justificar as práticas socialdemocratas. Ao contrário da Revolução Russa, também existem poucas obras introdutórias ou sintéticas sobre esse fenômeno em idioma português. Além das já citadas obras da coleção Tudo é História, tem o livro de Isabel Loureiro, A Revolução Alemã (editado pela Unesp), que é a melhor disponível em idioma português.



Há também a obra mais conhecida e quase clássica sobre o assunto, do trotskista Pierre Broué, A Revolução Alemã. Essa padece do problema do trotskismo, também presente no livro do próprio Trotsky, Revolução e Contrarrevolução na Alemanha, que é o vanguardismo, embora mitigado em alguns momentos no último livro, devido às ambiguidades do autor. Essas abordagens todas expressam uma perspectiva burocrática sobre a Revolução Alemã, seja da burocracia estatal e moderada (socialdemocracia), seja a da burocracia radicalizada e vanguardista (trotskistas). A lista desse tipo de obra é bastante extensa.



As melhores obras, no entanto, são as de Gilbert Badia, em seus estudos sobre o espartaquismo, bem como a obra do conselhista H. C. Meijer, O Movimento dos Conselhos Operários na Alemanha, apesar de muito sintético e focalizar aspectos ao invés do todo, os livros dos bordiguistas Denis Authier e Jean Barrot, A Esquerda Alemã: Doença Infantil ou Revolução? e A Esquerda Comunista na Alemanha (1918-1921), apesar de focalizar mais nas lutas entre as organizações revolucionárias e as burocráticas. Há também uma bibliografia pouco acessível e que contribui com material informativo, apesar da perspectiva de classe ser burguesa ou burocrática, além de obras de historiadores. Um exemplo é o livro de Noske, publicado em 1918, A Revolução Alemã, que mostra uma versão socialdemocrata, pois ele foi ministro na República de Weimar, pois além de fornecer informações, mostra uma determinada posição política expressando suas concepções a respeito do fenômeno em questão.


 

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